Dona Antônia

Em mais um episódio das minhas aventuras no transporte público paulistano, saí correndo do metrô ao ver que o ônibus que eu pego para ir trabalhar estava parado no ponto. Gentilmente, o motorista me esperou. Agradeci e passei pela catraca. Tive a sorte de poder me sentar, já que a moça que estava na minha frente (e que estava conversando uma uma senhorinha) ia descer no próximo ponto e, assim, pude descansar da minha pequena corrida (sou sedentária, licença). Outra sorte que eu tive foi a de sentar ao lado daquela senhora, que começou a conversar comigo quase que automaticamente após eu me acomodar.

O diálogo começou devido ao simples fato de eu ter me sentado. “Que bom que você conseguiu sentar, né?”, disse a senhorinha. Eu respondi dizendo que sim e contando que havia corrido para pegar o ônibus. Ela deu uma risadinha e deu início a um papo sobre como os jovens de São Paulo são mais cansados que idosos. “Sempre que eu entro no ônibus e vejo um menino novinho e cansado me oferecendo o lugar, eu logo recuso. Ele tá mais cansado que eu, quem sou eu pra pegar o lugar do menino? O lugar não é só preferencial, é de todo mundo”. A senhorinha se mostrou impressionada com a correria que os paulistanos vivenciam e falou sobre como em sua terra, Alagoas, é tudo muito diferente. “Mas tudo isso também tem a ver com a alimentação, né? Aqui as pessoas comem muita besteira. Lá é cuscuz, tudo com muita farinha, só comida com sustância. Comendo McDonald’s todo dia fica difícil não cansar, né?”. Depois de falar uns 10 minutos sobre sua magreza e sua preocupação com a saúde dos jovens, que estão cada vez mais gordos e, “consequentemente feios”, ela poderia soar meio gordofóbica para um problematizador (algo que eu também sou) que não entendesse o contexto de sua fala, mas eu tentei ver as coisas a partir de seu ponto de vista.

Ela tem 67 anos. Sempre foi muito preocupada com sua saúde pois sua mãe e alguns de seus irmãos morreram por descuido. Toda arrumadinha, contou que fazia o máximo para controlar seu colesterol e que, com muito orgulho, não tem diabetes. Conversamos por uns 15 minutos, até eu chegar ao ponto onde desço todos os dias. Perguntei seu nome, ela sorriu e disse que é Antônia. Após um “bom dia”, fui para o fundo do ônibus e uma moça sentou ao lado de Dona Antônia, mas ela teve o azar de estar de fones de ouvido.

Perdeu umas boas histórias.

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